quarta-feira, 6 de julho de 2016

Atavessando o oceano em uma banheira

A necessidade de tomar decisões nem sempre vem acompanhada de tumulto, falta de opções e barulho.

Aquela sensação já era familiar, uma brisa suave e o céu laranja ao entardecer... Poderia seguir para qualquer direção que quisesse, com rapidez ou lentidão, mas sabia que a calmaria poderia se tornar ressaca a qualquer tempo. Contemplava o oceano e suas infinitas possibilidades, se paralisava ao lembrar da fragilidade em estar cruzando-o em uma simples banheira. Como tantas vezes na vida, a facilidade em poder contabilizar as chances de fracasso a impedia de se afastar da praia, ainda que a ânsia por chegar em outros lugares dominasse sua mente diariamente.

Antes de se atrever a remar foi se deixando guiar pela correnteza e se lembrou de todas as vezes em que aquela sensação assustadora a impediu, sabia que a qualquer momento poderia cair no mar, poderia passar dias à deriva antes de encontrar o que procurava, poderia até mesmo chegar aonde nunca imaginou e, nunca se sabe, se iremos amar ou odiar o novo cais... Mas também esforçou-se para lembrar de todas as tempestades que passou em terra, sem dúvida com os pés em um chão firme mas nem por isso foi menos afetada pelos tufões, enchentes e destruições resultantes de cada tempestade.

Sempre se recuperou, e sabia que era forte por isso, porém não tanto a ponto de conseguir superar o medo de seguir adiante. Não ao ponto de decididamente agir por sua conta, e escolher se aventurar ao que queria viver, em vez de se deixar apenas levar pela correnteza para no final poder atribuir tudo ao destino, e lidar com as consequências de não ter escolhido nada como se isso por si só já não fosse uma escolha.

Não se sentia forte para abrir mão de suas decisões covardes e se responsabilizar por aquela viagem.
Até aquele momento.

Então se deu conta de que não escolher também sempre trouxe resultados, e nunca esteve mais segura assim. Isso a fez querer abrir mão de viver como vitima de fatalidades... Se for para arcar com responsabilidades que seja, ao menos, consequência de estar buscando tudo aqui que decidiu viver.

Olhou para o horizonte e depois de um longo suspiro encorajador, remou.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

O convite

"Não me interessa o que você faz para viver. Quero saber o que você deseja ardentemente, e se você se atreve a sonhar em encontrar os desejos do seu coração.
Não me interessa quantos anos você tem. Quero saber se você se arriscaria a aparentar que é um tolo por amor, por seus sonhos, pela aventura de estar vivo.
Não me interessa quais os planetas que estão em quadratura com a sua lua. Quero saber se você tocou o centro de sua própria tristeza, se você se tornou mais aberto por causa das traições da vida, ou se tornou murcho e fechado por medo das futuras mágoas.
Quero saber se você pode sentar-se com a dor, minha ou sua, sem se mexer para escondê-la, tentar diminuí-la ou tratá-la.
Quero saber se você pode conviver com a alegria, minha ou sua, se você pode dançar loucamente e deixar que o êxtase tome conta de você dos pés à cabeça, sem a cautela de ser cuidadoso, de ser realista ou de lembrar das limitações de ser humano.
Não me interessa se a história que você está contando é verdadeira. Quero saber se você pode desapontar alguém para ser verdadeiro com você mesmo; se você pode suportar acusações de traição e não trair sua própria alma. Quero saber se você pode ser leal, e, portanto, confiável.
Quero saber se você pode ver a beleza mesmo quando o que vê não seja bonito todos os dias, e se você pode buscar a fonte de sua vida da presença de Deus.
Quero saber se você pode conviver com o fracasso, seu e meu, e ainda postar-se à beira de um lago e gritar à lua cheia prateada: “Sim”!
Não me interessa saber onde mora e quanto dinheiro você tem. Quero saber se você pode levantar depois de uma noite de tristeza e desespero, cansado e machucado até os ossos e fazer o que tem que ser feito para as crianças.
Não me interessa quem você é, como chegou até aqui. Quero saber se você vai se postar no meio do fogo comigo e não vai se encolher.
Não me interessa onde, ou o que, ou com quem você estudou. Quero saber o que o segura por dentro quando tudo o mais fracassa. Quero saber se você pode ficar só consigo mesmo e se você verdadeiramente gosta da companhia que consegue nos momentos vazios"

(Oriah Mountain Dreamer)